(Entrevista Paul Hofman)
Ativista entusiasmada por todas as pessoas trans de origem brasileira. “Não posso ser quem sou em todos os lugares. Como pessoa trans nem sempre me sinto segura. Mesmo na Holanda há lugares onde não quero que as pessoas saibam que sou trans. Este ano sou embaixadora porque a maioria das pessoas trans não se sente bem representada dentro da comunidade LGBTQI+. Isso tem de mudar. Esta também é a nossa Pride!”
Entrevista
A brasileira Ana Paula Lima é, nesta Pride, o rosto da comunidade trans no nosso país. Nasceu em São Paulo, mas fugiu aos vinte anos. Para ela, enquanto pessoa trans, era impossível construir uma vida no seu país de origem. “Na verdade, tornei‑me adulta na Europa. Aqui fiquei mais resiliente.”
Ela conta sobre a sua vida, com muitos altos e baixos que enfrentou ao descobrir que era diferente dos outros. “Sou trans e, por isso, viver no Brasil foi difícil para mim. Ao mesmo tempo, também era muito perigoso.” E continua a ser, como mostra um relatório recente da Human Rights Watch. “Se tivesse de resumir numa palavra: é terrível.” A violência contra pessoas LGBTQI+ é frequente. Além disso, ainda existem diversos países onde pessoas trans são maltratadas, intimidadas e perseguidas, diz ela, em voz baixa.
Após fugir do Brasil, Ana Paula foi para Itália, onde viveu durante dez anos. “Lá conheci o amor da minha vida. E foi por causa desse amor que acabei na Holanda.”
A Holanda ocupa um lugar especial no seu coração. Vive aqui com muito prazer. Embora não seja sempre fácil ser trans no nosso país, admite Ana Paula. “Mesmo em certos bairros de Amesterdão não posso ser eu mesma. Sinto‑me muito insegura e por isso costumo evitá‑los.” Apesar de Brasil e Holanda serem totalmente diferentes, têm uma coisa em comum: a posição das pessoas trans é muito vulnerável, sublinha Ana Paula.
Na Holanda decidiu empenhar‑se ativamente pela comunidade trans. “Sempre tive um sentido de justiça. Desde muito nova enfrentei discriminação por ser trans. Mas nunca tinha feito nada a respeito. O ativismo foi surgindo em mim.” Com orgulho: “Entrega‑me de corpo e alma porque vi que, mesmo em Amesterdão, a emancipação das pessoas trans estava atrasada em comparação com o resto da comunidade LGBTI.” Hoje é uma ativista dedicada que coloca a comunidade trans em evidência. Já ninguém passa ao lado dela. Não se importa de nadar contra a corrente.
Que tivessem pedido a Ana Paula para ser embaixadora foi uma grande surpresa. “Eu não esperava de todo. Fiquei muito feliz porque é um reconhecimento do trabalho que faço pelo meu grupo.” É uma coroação do seu esforço, que ela desempenha com grande dedicação, energia e envolvimento. E continua: “Este ano sou embaixadora porque a maioria das pessoas trans não se sente bem representada na nossa grande comunidade LGBTQI+. Isso tem de mudar!” Ana Paula soa decidida: “Esta é também, afinal, a nossa Pride.”
O papel de embaixadora dá‑lhe mais esperança. “Espero que a nossa visibilidade melhore e cresça ao mesmo tempo. Como embaixadora posso deixar claro que o T na sigla LGBTI merece mais atenção.” E acrescenta: “Nós, pessoas trans, também temos talentos. O meu grupo está a sofrer e quero que todos encarem essa verdade. É por isso que me esforço.”
Sobre o conteúdo do seu novo papel, Ana Paula é direta. Há apenas uma forma de o dizer: “Durante muito tempo as pessoas trans foram um grupo esquecido. Sabias que durante a Parada de Barcos, no ano passado, pela primeira vez na história um barco trans participou?” Foi uma enorme vitória.
Ao despedir‑se, a carismática representante das pessoas trans diz emocionada: “Como mulher trans sinto‑me esquecida e ignorada. Sonho que os preconceitos contra pessoas trans desapareçam e que possamos gozar das mesmas liberdades que as outras pessoas.”
Se a missão desta dedicada defensora da aceitação das pessoas trans for cumprida, estará satisfeita. Para Ana Paula seguem‑se tempos atarefados.
Com a sua nomeação como embaixadora dá‑se já um pequeno passo rumo a um mundo melhor.
Pride Embaixadora desde 2017
