Fotografia: Prisma Compositional
Vídeo: Paradox Productions
Entrevista: Marco Hohl
Ellie Lust não exclui nada na vida: “No momento em que fazes isso, limitas-te. Pensa livremente. Entra na tua própria loja e pega nas prateleiras o que quiseres.” É uma atitude que encaixa perfeitamente com o seu novo papel como embaixadora da Pride Amsterdam. A ex-policial de 52 anos tornou-se conhecida do grande público como porta-voz policial no programa televisivo ‘Opsporing Verzocht’. Há quase um ano trabalha como produtora independente. Falámos com Lust, entre outros temas, sobre o papel de embaixadora, a mudança de carreira e os ursos polares que ela literalmente encontrou pelo caminho.
Ellie, tens dedicado anos à comunidade pride– como tu própria a descreves – e foste uma das iniciadoras da rede policial ‘Roze in Blauw’. Podes contar-nos um pouco mais sobre isso?
“‘Roze in Blauw’ é uma rede dentro da polícia neerlandesa que combate comportamentos e violência direcionados a lésbicas, gays, bissexuais ou pessoas com outra identidade de género. Começámos pouco antes do início dos Gay Games em 1998 com um pequeno grupo de colegas. Queríamos assegurar aos visitantes e participantes estrangeiros dos Gay Games que não precisavam de ter medo da polícia aqui. Só então percebemos que também éramos necessários em Amsterdão, porque muitas denúncias não chegavam a ser feitas. Descobrimos que se cometia mais violência anti-LGBT do que sabíamos. Os meus colegas e eu lutámos durante anos para consolidar ‘Roze in Blauw’. Entretanto crescemos até sermos uma rede nacional sólida.”
Estamos muito orgulhosos por seres embaixadora da Pride Amsterdam este ano. Por que aceitaste este papel?
“Desde que deixei a polícia, em outubro de 2018, não estou mais ligada profissionalmente à ‘Roze in Blauw’, mas acho importante continuar a apoiar a comunidade pride. Ainda há muitas pessoas que, por várias razões, não se atrevem a ser elas mesmas. Como embaixadora quero mostrar que és bom exatamente como és. Que nenhuma forma de amor deve ser julgada. O Boris Dittrich diz sempre tão bem: ‘The future is not in front of you, the future is inside of you.’ E é verdade! Espero poder ser uma fonte de inspiração para os outros. Seria maravilhoso se raparigas jovens que lutam com a sua identidade pudessem encontrar força na minha história. A vida melhora quando saís do armário porque deixas de negar quem és.It does get better!”
Trabalhaste 31 anos na polícia em Amsterdão. Como foi a transição de agente de polícia para produtora e apresentadora?
“Foi bastante intenso. Não foi necessariamente o meu desejo deixar a polícia, mas foi assim que aconteceu. Já passaram alguns meses e eu desfruto da liberdade. Faço o que quero e já não preciso de pedir permissão a ninguém. Acontece que num dia olho para a minha agenda e vejo que só preciso de fazer crossfit.” Adoro isso! Mas também há semanas em que não passa um dia sem que eu não faça nada. Isso também é bom! Estão a chegar-me tantos projetos interessantes que sinto muita confiança e entusiasmo pelo futuro.”
A partir de abril vai para o ar a segunda temporada de ‘Ellie op Patrouille’ na AVROTROS na NPO1, em que acompanhas equipas policiais por todo o mundo. Como é fazer este programa?
“Quando me candidatei à polícia não podia imaginar que um dia iria viajar pelo mundo para o meu próprio programa de TV. A nova série ‘Ellie op Patrouille’ é exigente. Por exemplo, alguém morre entre as minhas mãos na Argentina. Estivemos em El Salvador – um dos países mais perigosos do mundo, onde 25 pessoas são assassinadas por dia – mas também em Churchill, Canadá – uma cidade no percurso dos ursos polares que emendam para norte no final de outubro. Às vezes há até seis ursos polares por semana a passar pela vila. A polícia local – três agentes, com a Ellie Lust quatro – ocupa-se principalmente de manter as ruas livres de ursos. Em Churchill as portas dos carros ficam sempre abertas, porque se um urso aparecer de repente à tua frente, tens de te pôr a salvo imediatamente. Falei com uma mulher que, depois de uma festa com amigos, regressava a pé a casa. De repente viram um urso polar virar a esquina. Ele agarrou-a à maneira das focas; a boca dele por cima da cabeça dela. Sacudiu-a e ela foi escalpelada. Sobreviveu porque um vizinho foi corajoso e atacou o urso. Também estive na Jordânia para a série. Vou em missões de intervenção, mas também patrulho num camelo no deserto. Vou a passo naquele enorme ruminante pelo areal. É trabalho duro, mas fantástico. Ganhei muitas sortes na vida: cresci numa família amorosa e unida; vivo num país onde posso ser eu mesmo livre e em segurança; e tenho a oportunidade de fazer este programa. Sou muito grata por isso!”
Para terminar, voltemos à pride. Como interpretras o tema desta edição ‘remember the past, create the future’para ti?
“A Pride Amsterdam deste ano assenta nos 50 anos de Stonewall. Esses motins em Nova Iorque foram um ponto de viragem na luta por igualdade de direitos da nossa comunidade. Não estaríamos aqui hoje se esse passado não tivesse acontecido. Passado, presente e futuro estão intrinsecamente ligados. Quero desafiar as pessoas a pensar onde querem estar dentro de um ano – como indivíduo e como comunidade. Que papel vais ter na criação de um futuro melhor? O que vais fazer para o conseguir? Seria maravilhoso se cada pessoa contribuísse um pouco. Por exemplo, sendo aberta sobre quem és. Quase nunca vejo casais de homens de mão dada na rua. O mesmo se aplica a casais de mulheres. As pessoas não se atrevem por sentirem-se inseguras. Isso é intolerável. Essa demonstração de afeto deve poder existir! O meu coração policial diz sempre: toma cuidado! Falei com vítimas que depois disseram: ‘Já não me parecia bem.’ Tens de ouvir esse sentimento, porque ele não mente. Convido toda a gente a ficar comigo nas barricadas, de forma não violenta, com o objetivo final de criar um futuro melhor para todas as gerações depois de nós.”
“O TRABALHO VOLUNTÁRIO NÃO É OPCIONAL”
Embaixadora da Pride desde 2019
