
Texto: Paul Hofman
Foto: Leon Hendrickx
Vídeo: Paradox Productions
Rikkie Kollé (Miss Nederland): ‘Ousa a escolher por si mesma’. Em 2023, Rikkie Kollé (23) foi eleita Miss Nederland. A notícia chegou a destacar-se mesmo no The New York Times. Ela é a primeira pessoa trans a receber essa honra. Agora Rikkie é embaixadora da Pride Amsterdam. ‘Estou muito entusiasmada.’
Encantadora
Ela recorda bem sua primeira Pride. ‘Foi uma revelação para mim.’ Em 2023 ela participou na Parada de Barcos. ‘Foi uma grande festa. Tão encantador. Todas aquelas pessoas na margem, parecia… que presente.’ Pride Amsterdam é importante para ela. ‘Celebramos a liberdade, mas também mostramos e afirmamos que existimos.’ Na primavera de 2023 foi coroada Miss Nederland. Seu sonho realizou-se. ‘Quando criança eu já era dramática e adorava estar nos holofotes.’ Em imagens na televisão vemos Rikkie emocionada a receber a coroa e a faixa. Ela brilha intensamente. Seu sonho de infância tornou‑se realidade.
Rebelde
Nasceu em Hoorn, mas cresceu em Den Helder. Rikkie teve lá uma infância deliciosa. ‘Tive uma infância boa. Tudo era permitido e eu tinha um lar acolhedor. Desde pequena adorava ser dramática e também os holofotes.’ Ainda assim, ela foi muito perseguida. Ao lembrar‑se, isso ainda lhe causa dor. ‘Tinha onze anos quando me assumi.’ O bullying não parou. Teve uma fase escolar difícil. ‘O bullying durou até os meus dezesseis anos. Aí comecei a reagir com força. Comecei a testar limites. Acho que por pura frustração. Fiquei muito rebelde e andei com as pessoas erradas. Não estava nada bem comigo mesma.’ Isso acabou por a tornar mais confiante.
Parecia que tudo ia pelo caminho errado. Os pais ficaram desesperados. Ela reprovou no exame final do ensino secundário. ‘Tive de arcar com as consequências.’ Isso fez‑la refletir. Rikkie fez de tudo para recuperar o atraso.
Travessuras
Acabou por obter o diploma. Aos dezoito, Rikkie decidiu sair da casa dos pais. O mundo abriu‑se para ela. Não se arrependeu nem por um momento. Já sabia o que queria ser. ‘Famosa’, ri ela. Via Amsterdam chegou a Breda, onde vive até hoje. ‘Foi sobretudo uma época de festas e vida noturna. Recuperei tudo o que senti falta em Den Helder.’ Durante o dia fazia um curso de marketing e trabalhava como modelo. Apaixonou‑se pela cidade do sul. O mundo da moda deixou de ter segredos para Rikkie. Onde quer que fosse, lá estava ela.
‘Todas as traquinices que eu fazia no ensino secundário vinham em parte da insegurança sobre quem eu era. Eu comparava‑me demais com os outros. Não se deve fazer isso, percebo agora. E confie em alguém. Falar foi a chave para eu descobrir‑me. Recomendo isso a qualquer pessoa nessa situação.’
Holland’s Next Top Model
Mulheres na passarela de saltos altos conquistam sua atenção. Após o ensino secundário, Rikkie participou do reality Holland’s Next Top Model. Aos dezessete anos entrou na décima primeira temporada. Não venceu, mas foi elogiada pelo júri como talento no mundo da moda. Foi a segunda mulher trans a participar do programa, depois de sua modelo‑referência Loiza Lamers. Sua maior paixão continua a ser dançar, cantar e atuar. Uma carreira no mundo dos musicais é definitivamente uma possibilidade, diz ela radiante.
Miss Nederland
Seu grande exemplo é a modelo Loiza Lamers. Como mulher trans, Loiza venceu Holland’s Next Top Model em 2015. Isso abriu caminho para Rikkie. No ano passado ela foi eleita Miss Nederland. Sua eleição foi manchete mundial e até o influente The New York Times dedicou atenção a Rikkie Kollé. Pela primeira vez na história holandesa, uma mulher trans conquistou este prestigiado título. Ela sorri timidamente.
Mensagens de ódio
Isso trouxe não só felicitações, mas também muitas mensagens de ódio e até ameaças de morte. ‘Mentiria se dissesse que isso não me afeta. As ameaças diminuíram.’ Ainda assim, agora ela encara com relativa despreocupação. ‘Tenho cuidado, “leio” as pessoas e pergunto‑me se posso confiar nesta ou naquela pessoa. Isso mostra que ainda não chegámos lá.’ Em termos claros, ela enfatiza que as pessoas devem deixar os outros em paz e desejar felicidade uns aos outros.
Missão
Ficar embaixadora deixou‑a feliz. ‘É a cereja no topo do bolo. Estou superorgulhosa porque é também uma homenagem à comunidade lhbtiq+.’ Sobre sua missão como embaixadora, Rikkie não hesita. ‘Quero quebrar o estigma sobre ser trans contando minha história pessoal. E estar lá para crianças trans.’ Quer usar sua voz e ser um modelo para todas as jovens mulheres e pessoas queer. Ninguém conhece tão bem quanto ela a sensação de se sentir sozinha e não rodeada apenas por pensamentos positivos.
Vooruitstrevend?
Ela também preocupa‑se com o aumento da violência anti‑lhbtiq+ e que ‘estamos a regredir no tempo.’ Rikkie nota que a Holanda está a mover‑se de um país inclusivo para um mais exclusivo. Por exemplo, que um homem tenha medo de se vestir de forma feminina, ou um casal lhbtiq+ tenha medo de andar de mãos dadas, ou uma pessoa trans mais velha tenha receio de sair à rua.’
‘Deixem cada um ser como é. A família arco‑íris está sob grande pressão. A Holanda foi tão progressista, mas já não o é mais’, diz ela com pesar.
Pequenas Rikkies
Rikkie representa todas as pequenas Rikkies que enfrentam rejeição da família e do meio e a sua transição para a pessoa que desejam ser. ‘Se estás sozinho no teu quarto e não podes ser quem és, é tão importante aprenderes a amar‑te. Vou dedicar‑me com tudo o que tenho a isso.’ Ela também planeia visitar escolas para partilhar sua história pessoal. ‘Trata‑se de criar consciência.’ Sem dúvida tornar‑se‑á uma figura de referência. ‘Sejam sobretudo vocês mesmos.’
Embaixadora Pride desde 2024