Foto: Philippe Vogelenzang
Entrevista: Paul Hofman
Modelo neerlandesa, colunista e DJ. Ela é uma mulher trans. De Hingh tornou‑se conhecida pela primeira vez através do documentário Valentijn, que acompanhou a sua transição de homem para mulher ao longo de nove anos. Cresceu em Lelystad e mora atualmente em Amesterdão, onde estuda Literatura e Francês na Universidade de Amesterdão. Após a operação de confirmação de género em 2007, passou a trabalhar como modelo para nomes como Martin Margiela e Love Magazine. Para além dos estudos em Literatura, Francês e Filosofia, escreve também para a revista Spunk.
Entrevista Valentijn
“A mensagem é essa: sê tu mesmo!”
Valentijn De Hingh tornou‑se conhecida pelo documentário homónimo que acompanhou a sua transição de homem para mulher durante nove anos. Desde os dezassete anos que trabalha como modelo para diversas marcas internacionais de moda. Mas Valentijn é mais do que modelo: é também DJ e escritora. Este ano, a transmulher mais conhecida dos Países Baixos é também nossa embaixadora para a EuroPride. “Estou superorgulhosa.”
Valentijn nasceu e cresceu em Lelystad. “Percebi desde cedo que era diferente. Às vezes dizem que pessoas trans estão presas num corpo errado. Para mim isso definitivamente não se aplica.” Foi ela vítima de bullying na adolescência? “Sempre fui bastante aberta na turma sobre ser trans. Não diria que fui realmente perseguida. Já aconteceram situações em que rapazes se aproximavam e faziam comentários desagradáveis. Perguntavam o que se passava comigo.” Isso magoou Valentijn. Ela salienta que a educação sexual e a informação nas escolas são essenciais. Que a homossexualidade e a existência de pessoas trans, por exemplo, devem ser tratadas explicitamente. Hoje em dia são temas frequentemente negligenciados. O Governo não toma iniciativa. É uma oportunidade perdida. Ainda há muito trabalho a fazer.”
Quem poderia imaginar que em 2016 ela seria o rosto da EuroPride? “A EuroPride é literalmente uma festa para todos. Quer sejas hetero, gay, lésbica, bissexual ou transgénero, vivemos juntos neste planeta.” Ainda assim, Valentijn faz uma ressalva crítica: “Acho importante que não nos isolemos em ilhas dentro da comunidade LGBTQ+. Juntos somos muito mais fortes. Assim conseguimos lutar melhor pelos nossos direitos. Todos têm de perceber isso. Sinto, sinceramente, que as pessoas trans tiveram durante muito tempo um papel menos visível no debate LGBTQ+. Só desde há cerca de ano e meio é que realmente começámos a ganhar força, enquanto o movimento pelos direitos das pessoas gay já anda por aí há mais de 40 anos.”
Em termos de visibilidade, as pessoas trans ganharam muito. Também têm mais atenção mediática. Pense-se apenas nas histórias de Caitlyn Jenner e de Loiza, do Holland’s Next Top Model. Ainda assim, na opinião dela, há muito por conquistar dentro da comunidade LGBTQ+. Sou um modelo a seguir? Ela reflete profundamente e responde hesitante: “Quando era jovem não tive modelos à minha frente. Talvez hoje eu sirva de exemplo para outras pessoas. Mas, novamente: cada pessoa trans tem a sua própria história.”
Olhar para trás: “Sabias que foram sobretudo as mulheres trans e as drag queens que lideraram os motins de Stonewall em Nova Iorque, em 1969? Na altura, dávamos as mãos para resistir às humilhações infligidas pela polícia às pessoas LGBT daquela época.” “Hoje a comunidade LGBTQ+ está mais difusa e isso dói‑me.” O que a EuroPride significa para mim? “É muito mais do que uma festa. Trata‑se da mensagem: sê tu mesmo. E de procurares a tua própria história. Eu faço com que as pessoas percebam que nós, enquanto pessoas trans, importamos. E que, acima de tudo, devemos mostrar ao mundo que vocês não decidem por nós como devemos ser e viver. De desses estereótipos já basta. É horrível que as pessoas fiquem tão presas a padrões. Esse pensamento em caixinhas está tão ultrapassado.” O tema da EuroPride, ‘Join our Freedom’, encaixa‑lhe na perfeição.
Embaixadora Pride desde 2016
